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12/17/2008

CONTROLE BIOLÓGICO NA CULTURA DA CANA-DE-AÇÚCAR

 

Vespa Cotesia flavipes parasitando larva da Broca-da-Cana (Diatreae saccharalis)


Engº Agrº Carlos Arantes Corrêa


Revista Attalea Agronegócios


A cultura da cana-de-açúcar expandiu vertiginosamente em todos os cantos do país, graças à crescente procura pelo etanol e, consequentemente, pelos altos investimentos dos empresários em novas usinas esmagadoras. Mesmo com a recuperação dos preços de grãos (milho e soja) e a queda no valor pago pelas usinas por tonelada de cana produzida, a atividade vai se mantendo forte em todo o país.


Regiões tradicionais como o Nordeste, a região de Campos (RJ), a região de Campinas (SP), Piracicaba (SP) e a de Ribeirão Preto (SP), agora dividem espaço com áreas onde predominavam outras atividades agropecuárias (pecuária de corte e grãos). É o caso da Alta Mogiana (Guaira, Ituverava, Igarapava, Batatais, Orlândia), Sudoeste Mineiro (Passos, Guaranésia, Monte Santo de Minas), Triângulo Mineiro (Uberaba, Uberlândia) e cerrado de Goiás.


O crescimento da área plantada com cana-de-açúcar arrasta para cima outros setores da economia nacional, como a produção de fertilizantes e de agrotóxicos. Mas o uso indiscriminado e excessivo destes insumos, além de encarecer sobremaneira as atividades, interferem diretamente no meio ambiente.


Uma boa alternativa neste caso é a adoção do controle alternativo de pragas e doenças. De acordo com o biólogo Alzimiro Marcelo Conteiro Castilho, diretor da Divisão Técnica da Agribio Defensivos Alternativos todas as pragas e doenças – inclusive da cana-de-açúcar – podem ser tratados com o controle alternativo, isto é, utilizando produtos biológicos, rotação de cultura, inimigos naturais, bem como mudas e variedades resistentes à doenças.


Segundo Castilho, o controle biológico – principalmente o de insetos – vem sendo utilizado desde a Antiguidade. “Na década de 40, com a entrada dos compostos químicos no mercado, o uso do controle biológico diminuiu. Ressurgiu nos anos 60, devido aos problemas ocasionados pelo uso indiscriminado de agrotóxicos, especialmente às intoxicações e à resistência dos insetos aos inseticidas”, explica o empresário.

Atualmente estima-se que, para o controle de pragas e doenças – em todo o mundo e em todas as atividades agrícolas –, sejam consumidos 6 bilhões de dólares em agrotóxicos e que o retorno fica em torno de 3 a 5 dólares para cada dólar gasto na compra de produtos químicos. Segundo Castilho, o retorno pelo uso do controle biológico pode chegar a 25 dólares por dólar gasto, em um período de 5 anos e até 30 dólares, num período de 10 anos. “Além dos benefícios financeiros, devemos englobar os benefícios ambientais na análise custo-benefício do controle biológico”, alerta Castilho.


Conceito


Controle Biológico nada mais é do que o controle natural de organismos vivos utilizando-se de outros organismos vivos. “Todas as pragas tem um complexo de inimigos naturais que mantêm em equilíbrio o seu nível populacional. Todas as vezes que as pragas são favorecidas e que seus inimigos naturais são desfavorecidos, ocorre um desequilíbrio biológico, geralmente acarretando um aumento populacional da praga. O uso de inseticidas, de forma indiscriminada, é um desses fatores de desequilíbrio”, explica Castilho.


No caso das doenças, o uso de variedades resistentes é o tipo de controle mais utilizado. “O Mosaico, o Raquitismo-da-Soqueira, o Carvão, a Podridão-Abacaxi, a Estria Vermelha, a Escaldadura, a Mancha-Ocular e a Podridão Vermelha são exemplos de doenças em cana-de-açúcar que são controladas com variedades resistentes”, diz o biólogo.

No caso de nematóides – principalmente os dos gêneros Meloidogyne e Pratylenchus –, a Agribio indica o plantio de Mucuna-Preta (Stizolobium aterrimum), leguminosa que, além de controlar as infestações do nematóide, também é muito importante na adubação verde.

Pragas da cana


Várias são as pragas que atacam a cana-de-açúcar e que podem ser controladas com o uso do controle biológico.


Broca-da-Cana-de-Açúcar = A broca (Diatraea saccharalis e Diatraea spp.) é a principal praga da cana-de-açúcar em todo o país e com o avanço da atividade, tem sido encontrado com grande freqüência também em culturas de grãos, como o milho e sorgo.


Uma mariposa adulta chega a botar até 50 ovos nas folhas onde. As larvas se alimentam de folhas até conseguirem penetrar no colmo, onde começam realmente a causar danos para a cultura, pois permanecem se alimentando por cerca de 30 dias. Estes são os danos diretos do ataque da broca e caracterizam-se por: perda de peso (abertura de galerias no entrenó), morte da gema apical da planta (“coração morto”), encurtamento de entrenó, quebra da cana, enraizamento aéreo e germinação das gemas laterais.


Já os danos indiretos são causados por microrganismos que invadem o entrenó através do orifício aberto na casca pela lagarta. Esses microrganismos geralmente são os fungos (Fusarium e Colletotricum), que invertem a sacarose armazenada na planta, provocando perdas pelo consumo de energia no metabolismo de inversão e pelo fato dos açúcares resultantes desse desdobramento não se cristalizarem no processo industrial. Entretanto, quando a matéria-prima se destina à produção de álcool, o problema é mais grave, pois os microrganismos que penetram no entrenó aberto contaminam o caldo e concorrem com as leveduras na fermentação alcoólica. As perdas podem chegar a 35Kg de açúcar/ha, e a 30 litros de álcool/ha com apenas 1% de colmos broqueados.


A partir do momento que a broca penetra no colmo da cana, o controle químico, com o uso de inseticidas, torna-se inviável devido ao alto custo e baixa eficiência dos produtos que são incapazes de atingir as lagartas no interior dos colmos.


O controle desta praga tem sido feito utilizando inimigos naturais, como a Mosca-do-Amazonas (Metagonistylum minense), a Parathesia claripalpis, a Lixophaga diatrae e a Cotesia flavips.


Até a década de 1950, a broca-da-cana causava prejuízos consideráveis à atividade, atingindo frequentemente intensidade de infestação (relação entre número de colmos danificados e sadios) superior a 25%. Com a implantação de programas de controle biológico, utilizando-se de moscas nativas, a intensidade de infestação caiu e o índice se manteve ao retor de 10%, o que era considerado, na época, muito bom.


Na década de 80, a vespinha Cotesia flavipes (Apanteles flavipes) foi importada da Ásia para o Brasil e criada em grande quantidade em laboratórios em todo o país. Após o início da liberação das vespas em campo, o índice de intensidade de infestação caiu de 10% para 2%, ocasionando uma economia de mais de 80 milhões de dólares por ano no setor canavieiro.


Esse foi considerado o maior programa de controle biológico do mundo.


Cigarrinhas = A cigarrinha-das-folhas (Mahanarva posticata) e a cigarrinha-da-raiz (Mahanarva fimbriolata) provocam problemas sérios na região de Ribeirão Preto (SP) e também de Campos (RJ). Tem como agente biológico de controle, o fungo Metarhizium anisopliae, muito utilizado em décadas anteriores para a cigarrinha-das-pastagens.


Apesar de não ser tão extensamente utilizado como a vespa, a cada ano mais agricultores tem vislumbrado as vantagens de utilizar o fungo no controle da cigarrinha. “A economia gerada pela utilização do fungo em relação aos inseticidas chega a ser maior do que a gerada pela utilização das vespas. Entretanto, a utilização do fungo requer maiores cuidados dos agricultores quanto ao manuseio, conservação e aplicação”, explica Castilho.


O gorgulho-da-cana = O gorgulho (Sphenophorus levis) é uma praga que ocorre predominantemente no Estado de São Paulo e ataca as raízes e colmos, causando importância local e esporádica. Podem ser controlados pelos fungos Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae.

Cupins = Especialmente o Heterotermes tenuis, também pode ser controlado pelos fungos Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae.

Vantagens do controle biológico


Pesquisas feitas no Centro de Tecnologia Canavieira comprovam as vantagens do controle biológico da broca-da-cana com o parasitóide Cotesia flavipes. A cada 1% de infestação com a broca diminui-se a produção em 0,77%. Com o uso do parasitóide reduziu-se o nível de infestação de 3% para 2,6% na safra de 2005/2006, obtendo-se um benefício econômico de R$ 2,5 milhões.


A grande vantagem de alguns agentes biológicos de controle está relacionada com a especificidade de atuação do agente biológico. Se forem aplicados em doses elevadas, não provocam alterações biológicas no agro-ecossistema, não afetam parasitos, predadores e polinizadores. Portanto, os defensivos biológicos apresentam uma grande vantagem quando comparados com os agrotóxicos de largo espectro, com relação aos inimigos naturais, parasitos e predadores de pragas.


“Podemos citar como exemplo o fungo Metharizium anisopleae que, quando aplicado em cana-de-açúcar, demonstra seletividade aos inimigos naturais. Esta característica é de suma importância, uma vez que o controle de pragas se baseia nos conceitos de MIP – Manejo Integrado de Pragas”, afirma Castilho.


Esse controle utiliza a ação benéfica de parasitas, predadores e de agentes biológicos associados a outras medidas de controle, inclusive aplicação de agrotóxicos. Estes produtos são aplicados sob populações de pragas que atingiram o nível de dano econômico, sob condições inadequadas aos inimigos naturais.


Quando se emprega um agente biológico de controle específico para se controlar uma praga, o principal alvo atingido é o inseto praga e o controle natural é feito por parasitos, predadores e agentes biológicos, sem afetar o agroecossistema.

Outras vantagens:


a) – Multiplicação e dispersão:- os agentes biológicos de controle possuem capacidade de multiplicação e dispersão no ambiente através dos indivíduos da população, isto é, os agentes biológicos podem permanecer na área, no solo;


b) – Efeitos secundários:- além da mortalidade direta dos patógenos podem afetar as gerações seguintes diminuindo a oviposição, viabilidade dos ovos e aumentando a sensibilidade da população a outros agentes biológicos e químicos;


c) – Controle mais duradouro:- após o estabelecimento do agente biológico de controle em uma determinada área, o inseto dificilmente atinge níveis de danos econômicos;


d) – Controle associado:- os agentes biológicos de controle podem ser usados juntamente com inseticidas seletivos visando um controle mais rápido e eficaz da praga, sem os inconvenientes das superdosagens dos inseticidas químicos;

e) – Aplicação:- os agentes biológicos de controle podem ser aplicados com máquinas convencionais, as mesmas empregadas para a aplicação de defensivos químicos;


f) – Poluição e toxicidade:- os agentes biológicos de controle não poluem o ambiente, não são tóxicos para o homem e outros animais;


g) – Resistência:- os insetos dificilmente poderão se tornar resistentes aos agentes biológicos de controle;


h) – Produção mais econômica;


i) – Aumento da segurança alimentar;


j) – Menor exposição do trabalhador rural a substâncias tóxicas;


k) – Reduz o impacto ambiental da agricultura ao meio ambiente, evitando o uso de agrotóxicos.


Fonte: http://www.peabirus.com.br/redes/form/post?pub_id=44701



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